Durante anos era impossível não associar as
férias escolares à praia, principalmente quando o assunto era a paradisíaca
Ilha de Algodoal, localizada no município de Maracanã, no estado do Pará. Veja
bem, minha ligação com este lugar é especial, quem diz isso é tia Monique, pois
sempre que tem uma oportunidade conta que aprendi a engatinhar, ao longo da
vazante da maré, nas brancas areias da Praia da Caixa D’água, próximo ao canal
da travessia dos barcos.
Ao chegar à ilha não precisava dizer nem onde
era a casa da família, uma vez que a maioria dos carroceiros já sabia qual o
destino final e seguia automaticamente para a casa ao lado do hotel São Pedro.
Mas, para aqueles que estranhavam o nome do hotel, bastava dizer que íamos para
a casa em frente à do Buigi, também conhecido como seu Waldir, o caseiro.
Mas, sinceramente, eu gostava de imaginar que
o lugar onde eu passava as férias era a última casa da última rua, no entanto
essa não era uma localização nem totalmente certa, nem totalmente errada. A
prova disso é que até hoje não sei dizer
se as ruas da vila têm algum nome para identificá-las, pois os lugares ditos
mais importantes estavam na rua principal, seja a padaria, a praça ou a
delegacia.
Depois de idas e vindas visitando a ilha, o
terreno, onde a casa posteriormente foi
erguida, foi comprado pelo seu Manoel Soares, também conhecido como meu avô.
Ele usou metade do dinheiro recebido com a sua aposentadoria para realizar o
sonho de ter um pedaçinho de terra naquele lugar que ele tanto amava. Iuska
Almeida, uma de suas filhas, conta que o período entre a compra da propriedade e
a construção total da casa foi de aproximadamente um ano e meio, um espaço de
tempo rápido considerando que todo esse processo aconteceu entre os anos de
1989 e 1991. Além disso, todo o material de construção utilizado na casa foi
comprado em municípios vizinhos para em seguida ser transportado até o porto de
Marudá para então seguir de barco para Algodoal, já que a ilha naquela época
não tinha nenhuma estância.
A foto, tirada alguns dias após o término da
construção mostra uma casa simples, no pátio uma cerca de madeira banca,
algumas pequenas plantas na frente, além do pé de goiaba e da antena parabólica
à direita. Como proteção, bastavam apenas algumas estacas de madeira e arame
farpado, já que a tranquilidade da ilha não exigia nada além disso.
Nunca gostei de goiaba, nem da fruta em si, muito
menos do suco, mas aquela goiabeira da casa. Ah! Ela era o meu xodó. A árvore
tinha um tronco tortuoso e cheio de ramificações, a primeira delas ficava não
muito distante do chão e era grande o suficiente para que uma criança
conseguisse passar alguns minutos sentada ali. Por isso a árvore foi motivo de
briga entre os primos, porque quando um estava lá brincando os outros também queriam
e durante alguns anos essa foi a maior diversão. Apesar do porte pequeno/médio,
a goiabeira acabou crescendo demais, tanto para cima quanto para baixo e o
grande problema foi que a raíz ramificada da árvore estava comprometendo toda a
encanação do banheiro, e não houve outra alternativa a não ser escolher entre o
reino imaginário onde as crianças podiam exercer toda a alegria fantasiosa e
infantil da diversão e o bem-estar da casa no mundo real onde os adultos
governavam. Risos e choros à parte. Da goiabeira restou apenas uma saudade
doída e muitas lindas lembranças.
A casa em si era pequena e aconchegante,
possuia apenas quatro cômodos, sendo um banheiro que tinha duas portas, uma
saía para o quarto da frente e a outra para o de trás. Além da pequena cozinha
que tinha um armário de madeira, uma geladeira, o fogão antigo e a mesa próxima
à porta que ia para o quintal.
Ainda nos fundos, já próximo ao muro do hotel,
havia um anexo onde era possível armar pelo menos quatro ou cinco redes uma do
lado da outra, além de uma espécie de depósito úmido e escuro que durante
muitos anos abrigou o gerador de energia da casa, já que somente no início de
2005 a companhia de energia elétrica do estado instalou os postes de energia na
ilha. Antes disso, o motor trabalhava todas as noites mesmo quando minha
família não estava na casa, porque a energia gerada era compartilhada com a casa
do caseiro, por isso seu Waldir ligava-o no final da tarde e por volta da meia-noite
era desligado.
Antes da energia elétrica, a iluminação era
um tanto instável, então um dos melhores passatempos durante o dia era, brincar
na rua com os netos do caseiro ou subir na goiabeira ao lado da casa. E durante
a noite se reunir com os nativos que contavam histórias, um tanto curiosas e misterisosas,
sobre a ilha desde as lendas da matinta pereira até luzes estranhas vistas na
praia. Confesso que as histórias me deixavam com um certo medo, então em vez de
ouvi-las, ia observar o céu, ver as estrelas que sempre brilhavam intensamente,
já que não havia poluição para atrapalhar esse momento. Até hoje, juro que não encontrei
nenhum outro lugar onde pudesse olhar para a imensidão dos astros como lá.
Era durante as noites de réveillon que a
magia realmente acontecia, quando criança era difícil ir à praia passar a
virada do ano porque não conseguia ficar acordada até a meia-noite, então eu
dormia em casa e quando o ano rompia minha mãe me acordava com beijos e uma
chuva de pipoca na cama mesmo.
Quando cresci, a festa da pipoca foi deixada
de lado e novos rituais surgiram, certa vez o Paulinho, um velho amigo da
família, fez a oferenda de champanhe para os santos. Ele basicamente despejou
metade da garrafa no chão da rua e disse que dessa forma nada de ruim ia
acontecer no ano que se iniciava, pois os santos foram lembrados. Próximo à
meia-noite, a família inteira vestida de branco fazia o curto percurso até a
praia para ver os fogos de artifício, o curioso é que muitas vezes a atenção
podia dividir-se entre os fogos disparados na ilha de Algodoal e os de Marudá e
Crispin, as cidades do outro lado da baía.
A casa pouco mudou com o passar do tempo. Mesmo
após passar alguns anos abandonada, a estrutura original foi mantida para
honrar aquele que a construiu e que hoje não está mais entre nós. Há pouco mais
de um ano o quintal ganhou um banheiro e um novo anexo, já que o antigo estava
em condições precárias correndo o risco de desabar. Além disso, o muro outrora
de velhas estacas e um emaranhado de ferro e foi substituído e deu lugar a um
casamento perfeito entre tijolo e cimento, mas sem esquecer das colunas de concerto
e, é claro, do arame farpado. No lugar do velho portão branco há um novo feito
de madeira com um telhadinho.
Já a velha antena parabólica, bem, ela
continua lá, apesar de não ser usada há algum tempo já que a televisão sempre
dá problema, ainda mais agora com essa história de sinal digital, talvez a
parabólica esteja com os dias contados. E quem sabe assim ela possa assumir uma
nova função, aquela que - eu quando criança - sempre achei que fosse de fato o
seu trabalho: receber algum sinal de vida extraterrestre. Ainda que isso não
aconteça, a antena não sairá de lá, afinal é uma peça fundamental na
ornamentação da casa.

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